quinta-feira, agosto 27, 2009

Funerais ao longo do tempo e das religiões



Morte. O rito de passagem por qual todos vamos ter que atravessar cedo ou tarde em direção à obscuridade imposta pelo destino. O que vem depois? Quem sabe? Mas é certo que essa dúvida vai ser resolvida algum dia.

Se, segundo a espiritualidade, para o sujeito falecido a morte é só um começo, para os que ficam ela é o fim. O fim de uma vida amiga. O fim da sua presença. O fim do contato natural.

E para marcar esse fim, nada mais justo que um ritual. Todas as culturas possuem algum tipo de regra para essa ocasião. Como a morte é a principal ligação do homem a um lado que ele busca entender incessantemente, as religiões ficam responsáveis por essa parte.

Diferentes culturas = Diferentes rituais

Cada cultura tem seu modo próprio de "celebrar" a morte. Mesmo dentro de uma mesma religião, existem formas diferentes de encarar essa última cerimônial.

Vou procurar ilustrar alguns dos rituais mais conhecidos (e outros nem tanto!)

Funeral Católico


É um dos mais conhecidos dentro de nossa cultura. O ritual se inicia com o chamado "Velório".

Neste ritual fúnebre, o corpo é colocado num caixão, se possível aberto, rodeado de velas. E assim passa por um período a depender da hora do enterro. Durante o velório os familiares e amigos visitam o corpo e fazem suas homenagens.

Acredita-se que a intenção original do velório era ter certeza que o indivíduo morreu mesmo. Como antigamente as ciências médicas eram limitadas ou inexistentes em alguns lugares, o velório dava mais um tempo para o possível defunto acordar e não ser enterrado vivo.

É costume dos católicos cantar músicas religiosas durante o enterro. Para eles, "cantar é rezar duas vezes". Existem músicas específicas para essas situações. Elas se chamam "Requiem".

Também é costume levar flores em ramalhetes ou coroas.

Para os católicos, tanto faz ser enterrado ou cremado.

Ah! Só como curiosidade, mesmo com o velório, alguns indivíduos ainda eram errroneamente enterrados vivos. Então criou-se o costume, em alguns lugares, de amarrar uma corda no pulso do defunto com uma sineta na outra extremidade. Após o enterro o coveiro costumava fazer vigília próximo ao túmulo e algumas vezes ouvia o sino tocar. Assim ele sabia que o cara tinha sido enterrado vivo e podia salvá-lo.

Foi assim que surgiu a expressão "Salvo pelo gongo".


Funeral Humanista

É um funeral realizado para alguém que seja Ateu, ou seja, não acredite em, Deus, Deuses ou qualquer coisa que venha após a morte. Para o Ateu: Morreu? Acabou!

O Funeral Humanista tem como objetivo apenas manter a lembrança do falecido dentro da mente dos amigos e parentes. Nada de "encaminhar a alma" do morto aos céus.

O Funeral Humanista pode ser conduzido por qualquer pessoa que tivesse um vinculo com o morto. Todas as referências de "Deus" ou "Vida após a morte" são eliminadas.

Dificilmente são realizados, pois os rituais são celebrados por quem fica e não por quem vai e é muito difícil que uma pessoa "não crente" tenha todo um grupo de amigos e parentes com a mesma convicção.

Funeral no Japão

Quase toda a totalidade (90%) dos Japoneses são enterrados segundo as tradições budistas. A cerimônia se inicia com o Wake, passando à cremação e, por fim, ao enterro na sepultura da família. Quase 100% dos japoneses são cremados. Isso tem até lógica pois gasta menos espaço para acomodar o morto e terreno é uma das coisas mais valorizadas no Japão.

O "velório" japonês se chama "Tsuya" e envolve todo um processo ritualístico. Até a forma que o roupão é colocado no morto deve seguir um padrão. A família recebe os convidados e serve uns petiscos simples, sempre fora do local onde está o falecido. Sempre fica alguém com o corpo durante a noite e uma vela deve estar acesa todo o tempo.

O dia seguinte é o da cerimônia fúnebre em si. Muito icenso queimado, muita recitação de "Sutra" (uma oração para acalmar o morto) e enfim, vamos para o crematório. O carro que leva o corpo é especial e tem um formato de casa de luxo. Em seguida o corpo é colocado no forno e, após o término, os ossos são colocados em caixas específicas para mais orações.


É a hora da cachaça! Agora todos vão à casa encher a cara e falar bem do falecido. Em outra oportunidade as caixinhas serão levadas ao túmulo definitivo.

Funeral Judaico


O funeral do judaísmo tende a ser o mais simples possível. Inicialmente temos o "taharat" que é um ritual para limpar o corpo do falecido. Com isso se busca a purificação. Em seguida se veste o corpo. Todos são vestidos com uma mortalha brança. Busca-se com isso eliminar diferenças sociais, já que na morte somos todos iguais.

O enterro ocorre o mais rápido possível após a preparação. O corpo é colocado num caixão de madeira simples e levado para o enterro. Esse caixão não deve mostrar o corpo, pois a exposição dos restos mortais é proibida. Por esse mesmo motivo não há velório.

Os mortos judeus devem ser enterrados litaralmente na terra nada de câmaras mortuárias nem concreto. A cremação é estritamente proibida.

Também são evitados coisas como flores ou incensos. Eles acreditam que esses eram artifícios antigos para disfarçar o cheiro do cadáver. Hoje não são necessários.

O enterro em si também segue um ritual. Uma das características mais interessantes é uma espécie de "demonstração de dor". Nela, parentes mais próximos rasgam um pedaço da própria roupa.


Funeral hindu


Na Índia o funeral envolve duas coisas básicas. Crema-se o cadáver e se joga num rio, de preferência o Ganjes.

O problema é que a maioria da população não pode pagar uma cremação completa. Então queima-se o corpo numa fogueira e joga-se os restos no rio. Algumas vezes o corpo é jogado sem mesmo queimar.

Esse tipo de hábito gera um sério problema de saúde pública na India pois eles usam o tal Rio Ganges para tudo. Tomam banho, jogam esgoto, são "batizados", bebem sua água, nadam...Isso tudo junto aos corpos em decomposição.



Funeral Viking


Os Vikings tinham uma forma legal de funeral, sempre envolvendo cremação.

Se o guerreiro fosse morto em batalha e não tivesse água por perto, seu corpo era queimado numa grande fogueira.

Mas se houvesse água, o corpo era colocado numa embarcação, ateado fogo e lançado ao horizonte.

Os bens pessoais do Viking também eram queimados. Nesses "objetos" podemos incluir animais de estimação e escravos.


Funeral Índigena


Como existem várias tribos e, cada uma delas com seus rituais próprios, resolvi escolher apenas um para ilustrar.

Vamos falar do ritual fúnebre dos índios Bororo.

A cerimônia deles chega a levar 3 meses pois é necessário uma completa putrefação da carne para a fase final!

Inicialmente o morto é colocado numa cova rasa no pátio da aldeia.

Diariamente os corpos são regados para acelerar o processo de decomposição. Vários rituais são realizados com muita dança, comida, bebida e apresentações teatrais.

Uma dessas apresentações é uma espécie de caçada, onde o índio que representa a alma do morto deve matar a fera "Mori".

Quando se completam aproximadamente 3 meses o corpo é exumado, levado para um rio e os ossos são lavados para remover todo o resto de tecido putrefato que existir.

Depois esses osssos são colocados em cestas e levados para a aldeia onde são pintados.

Por fim, a cesta com os ossos pintados é levada a um rio, afundada na parte mais profunda e presa por um pau, que fica com a ponta fora d'agua. Esse local é chamado "morada das almas".



Funeral muçulmano


Tudo começa no momento da morte. Se o sujeito estiver a beira do falecimento, deve virar para Meca e recitar uma oração a Alá. Se ele não conseguir dizer, um parente pode fazer isso por ele.

Assim como os Judeus, os Muçulmanos tentam fazer o sepultamento o mais rápido possível. Morreu pela manhã? Enterra antes de anoitecer. Morreu pela noite? Enterra pela manhã bem cedo.

A preparação do corpo inicia com um banho ritualístico chamado "Ghusul". Depois são cobertos por um lençol branco e colocados numa espécie de esteira e levados ao cemitério. Alguns são levados em um caixão mesmo, mas não é tão comum. Se o morto for considerado um "Sharid" (uma espécie de herói de guerra religiosa), ele não passa pelo Ghusul e é enterrado com a própria roupa do corpo.

A cova é cavada bem funda e o cerimonial é rápido e simples.

Enterro de Esquimó

Quais são esquimós Enterro Alfândega

Esse é interessante. O Esquimó assim que morre deve ser colocado no chão. Só assim sua alma pode encontrar o além vida.

Mas se a pessoa morre por causa de alguma doença, seu corpo é desmembrado e cada parte é jogada em um lugar diferente.

A depender da localização do esquimó ele pode ser cremado, lançado ao mar ou enterrado. Neste último caso uma pilha de pedras é colocada em cima para marcar o lugar.


Considerações finais


O funeral tem a capacidade incrível de beatificação. Todo mundo vira "santo" após a morte. Por mais que a pessoa fosse um crápula em vida, de alguma forma ele fica menos cruel no ritual. Políticos viram pessoas honestas; ladrões, coitados... Suas condutas foram culpa da sociedade; o feio fica bonito. Até o Rubinho Barrichello após a sua morte vai perder a fama de azarado e ganhar status de herói brasileiro.

Para encerrar gostaria de dizer uma frase que a muito tempo li numa propaganda de roupas:

"Aproveite seu corpo enquanto ele é diferente pois um dia seremos todos iguais!"

8 comentários:

Ana Carolina disse...

O indígena você poderia ter exemplificado com os que cremam o cara e misturam as cinzas a um mingau de banana que toda a tribo come! =p~


Ah! Eu quero ser cremada... Espero que até lá isso já possa ser feito aqui no NE ¬¬'

Ana Carolina disse...

PS: já possa ser feito = já exista estrutura para tal.

Vivi Blood disse...

Gostei muito dessa matéria,mas fiquei fissurada em mais detalhes, num devido tempo vc podia ilustrar mais Claudio, e falar de necrófilos tb,acho que cabe ao assunto...nham...nham.
Mas como sempre, mesmo simples tá bem legal .

B ! disse...

Funeral Viking for the win!

Reason In Madness disse...

Legal, o comentário do funeral japones.
uma curiosidade, o dedão no Japão se chama "oya yubi" (tradução literal, dedo pai), e uma superstição, é que quando alguém vê o carro fúnebre, esconde o dedão fechando os outros dedos sobre ele. dizem que é pra proteger os pais da morte. (os humoristas brincam: e se alguém não gosta dos pais vai ficar fazendo sinal de positivo pro carro fúnebre?)

paulo disse...

Claudio, estou fazendo uma pesquisa e preciso de informacoes de funerais de outras culturas e epocas. tem como me conseguir as informacoes ou me dar uma luz de onde encontra-las? mande a resposta para o meu mail, por favor: deus_kane@yahoo.com

BlacK SnaKe disse...

nossa realmente um post e tanto!! mas particulamente oque mais me fascina era funeral da epoca onde se falava muito em mitologia de Deuses e tal.
Se formava uma pira de madeira, e com corpo no topo dela, era colocado uma moeda sobre cada olho, como forma de pagamento para o Barqueiro Caronte fazer a viagem do morto pelo rio Estige até o submundo de Hades onde as almas eram julgadas...! =p.

Anônimo disse...

Gostei muito da sua matéria . Excelente. parabéns pela simplicidade com que você abordou o assunto.